Será o nomadismo digital o futuro do trabalho?

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Será o nomadismo digital o futuro do trabalho?

Será o nomadismo digital o futuro do trabalho?

O digital e a globalização trouxeram novas formas de trabalho. Nos últimos anos, tem crescido o número de nómadas digitais - pessoas que, trabalhando à distância decidem juntar o útil ao agradável, e viajar mundo fora sem sair das suas rotinas de trabalho. Aproveitam o facto de poderem trabalhar à distância para conciliarem trabalho com viagens. Andam de país para país e por isso são "nómadas". Fomos conhecer Krystel Leal, a autora de um blogue e de um livro que promove o nomadismo digital, a partir do ecossistema empreendedor de Silicon Valley.

Confortavelmente, em casa ou em qualquer parte do mundo, sem o stress das horas infindáveis no trânsito ou horários rígidos nas empresas. São cada vez mais os que procuram uma maior flexibilidade no trabalho, que lhes permita ser mais autónomos, mais livres, mais produtivos, mais criativos e, no final de contas e não menos importante, mais felizes.

 

O nomadismo digital não é só uma filosofia de vida que parece estar a ganhar cada vez mais adeptos, mas poderá ser, no futuro, uma alternativa ao modelo de trabalho tradicional, numa empresa, com regras rígidas e horário das 9h às 18h. 

 

Krystel Leal é uma nómada digital e criou uma plataforma online para inspirar e partilhar experiências para quem procura esta forma de trabalho. O projeto Nomadismo Digital é um ponto de apoio para quem quer trabalhar à distância ou como freelancer, onde pode encontrar ideias de negócios para trabalhar em casa, ferramentas digitais ou espaços de coworking.

 

“Hoje há cada vez mais pessoas a não aceitar que o trabalho é sinónimo, quase que obrigatório, de descontentamento e frustração. Não tem de ser. E assim sendo, cada vez mais surgem pessoas que metem ‘a mão na massa’ para procurar soluções para se sentirem mais realizadas (…) Isso acontece não só pela facilidade em aceder a informação sobre o tema, como também pela consciencialização mais recorrente de que o bem-estar e a felicidade pessoal está diretamente ligada à nossa realização profissional”, afirma Krystel Leal, que fez do nomadismo digital uma forma de vida e um projeto de empreendedorismo para inspirar outros nómadas um pouco por todo o mundo.

 

Krystel nasceu em França e veio para Portugal com apenas quatro anos. Viveu em Corroios, na margem Sul do Tejo até aos 19 anos até rumar a Paris para estudar. Viajou pela Europa, chegou a viver três meses na Alemanha até se mudar para a Califórnia. Krystel é “uma nómada digital com um posto fixo”, a partir do ecossistema empreendedor de Silicon Valley, onde reside, há cerca de um ano, e onde trabalhar nos cafés, em espaços de coworking ou a partir de casa mesmo que a empresa seja mesmo ali ao lado, é uma prática comum e culturalmente enraizada.

 

“A cultura de Silicon Valley é também muito relacionada com a do Nomadismo Digital, pois não só é aqui que nascem as start-ups e empresas que todos conhecemos, como também é aqui que nascem as soluções para as equipas remotas. Recentemente visitei a sede da aplicação Evernote e quando se ouve que dezenas de colaboradores fixos da empresa trabalham remotamente e isso é normal, dá-me esperança que a tendência se torne ainda mais global”, sublinha.

 

A promotora do projeto diz que, neste momento, não se imagina a viver e a trabalhar de outra forma. “Trabalhar como freelancer remota permite-me não só controlar os meus próprios horários e a minha própria atividade, como sinto que consigo ser intelectualmente mais livre. Consigo absorver aquilo que realmente quero, mas também tudo aquilo que se apresenta à minha frente de diversas formas, seja nas viagens que faço, seja com as pessoas que vou encontrando”, conta.

 

Comparar a realidade portuguesa com Silicon Valley é difícil, afirma a fundadora do projeto, até porque o nosso país está a mudar muito rapidamente, mas a convicção é que por cá, ainda prevalece a cultura do “presencial” nas empresas, mas o mercado de trabalho parece estar a dar sinais de mudança. “Existem, é certo, cada vez mais freelancers e empreendedores – daí estarem a surgir cada vez mais espaços de coworking –, mas a nível empresarial acho que ainda precisam de ser feitas mudanças de mindset para que se olhe para o trabalho remoto como uma forma diferente, mas igualmente válida de se trabalhar”, defende Krystel Leal.

 

“O futuro do trabalho vai passar pelo trabalho remoto”

 

Se o nomadismo digital é uma solução ao modelo tradicional do trabalho, como é que vai coexistir com a entrada dos robôs no mercado de trabalho? Krystel Leal tem uma visão bastante otimista em relação à disrupção tecnológica, até porque os robôs não vão substituir os humanos na maioria das tarefas, sobretudo “nas que carecem de emoções e análises mais intuitivas”, como nas áreas da comunicação, seja ela presencial ou digital, nos serviços terciários, na educação, no design, na escrita, no coaching, na psicologia, no direito, nos serviços sociais, entre outros, exemplifica a fundadora do projeto.

 

“ Acho que o trabalho remoto vai ser visto cada vez mais como uma forma válida de trabalhar, sendo que as empresas vão oferecer a possibilidade de trabalhar ou no escritório ou remotamente. E isso vai trazer sem dúvida mais satisfação laboral e profissional às pessoas”, sustenta.

 

A geração mais jovem, da era dos nativos digitais, vão tirar vantagem do nomadismo e do trabalho à distância. “Os jovens nasceram com smartphones e tablets, a linguagem deles não é a dos livros, dos dicionários ou das enciclopédias como foi a minha geração. A linguagem que eles falam e que sabem descodificar é a linguagem digital, sendo que para eles não trabalhar remotamente já não vai fazer sentido. Acho que eles vão encaram este caminho como um caminho mais do que natural”, constata Krystel Leal.

 

Nomadismo Digital é um sucesso no crowdfunding

 

Graças a uma campanha bem-sucedida na plataforma de crowdfunding PPL, o projeto vai crescer e permitir ser autossustentável ao nível da gestão da plataforma e para implementar novas ideias, como a criação de vídeos, organização de eventos  e discussões online, que vão permitir “um contacto mais direto com os seguidores, um acompanhamento mais próximo das pessoas com conselhos e respostas mais personalizadas”, avança a fundadora do projeto.

 

Tudo começou em 2016 com o blogue pessoal, onde Krystel partilhava as suas experiências como freelancer e as aprendizagens da partilha que 'bebia' de outros países por onde viajava, porque em Portugal não se falava e não se encontrava muita informação sobre o nomadismo digital, conta.

 

Nessa altura avançou para a criação da plataforma online Nomadismo Digital, onde partilha informações úteis para quem quer trabalhar à distância e desde então o feedback tem sido muito positivo. “Tem ajudado sobretudo a mostrar às pessoas que o trabalho remoto é uma alternativa viável para o modelo de trabalho tradicional e que sim, é possível para qualquer pessoa, mesmo que não seja da área da tecnologia, trabalhar a partir de casa – ou de qualquer outro lugar do mundo”, argumenta.

 

E se ainda tiver dúvidas de como pode trabalhar a partir de qualquer parte do mundo, pode encontrar mais informações no eBook “Como Ser Freelancer”, também da autoria de Krystel Leal, disponível na plataforma Nomadismo Digital, e que ajuda os que querem dar os primeiros passos no trabalho online.

 

Conselhos para trabalhar em qualquer canto do globo

 

A fundadora da plataforma Nomadismo Digital, Krystel Leal, deixa três conselhos a quem quer mudar de vida e trabalhar em qualquer parte do mundo.

 

1. “Pensar fora da caixa”

O primeiro passo para tornar-se um trabalhador remoto bem sucedido é saber que isso é possível. E, para isso, é preciso mudar de mentalidade, abandonar as crenças que nunca tentámos contestar ou questionar como “isto não dá dinheiro”, “isto é só para os jovens” ou “isto é só para quem entende de computadores”. O primeiro passo é entender que é possível, qualquer pessoa pode, desde que esteja motivada para aprender e absorver novo conhecimento e novas formas de olhar para o trabalho.

 

2. “Reaprender a olhar para nós próprios”

Passamos a vida a ser avaliados por outras pessoas, desde a escola aos nossos empregadores. Ser trabalhador remoto vai passar por saber quem somos enquanto profissionais para sabermos o que podemos oferecer e vender.

 

3. “Saber sem fazer, não é saber”.

É um dos meus lemas e que ainda hoje relembro com frequência. Ler, ouvir outros trabalhadores remotos e tentar aprender com eles é muito importante. Mas mais importante que isso é ir aplicando o que se vai aprendendo. Não esperem querer saber tudo, ou saber fazer o melhor site do mundo, a melhor apresentação, o melhor logotipo ou o melhor perfil no Linkedin para se lançarem: se souberem o conteúdo de um livro de cor, isso não vos vai fazer trabalhadores remotos ou fazer ganhar dinheiro e ter uma atividade profissional sustentável, se não disserem e mostrarem o que sabem a outros. Sem medos!